Muhammad Yunus, que anunciou sua renúncia ao cargo de primeiro-ministro de Bangladesh na segunda-feira, mencionou os estados “Sete Irmãs” do nordeste da Índia, juntamente com o Nepal e o Butão, ao delinear uma visão econômica sub-regional em seu discurso de despedida, palavras que provavelmente chamarão a atenção em Nova Delhi em meio aos já tensos laços Índia-Bangladesh.
Num discurso televisionado um dia antes da sua demissão, Yunus disse que a política externa do Bangladesh durante o seu mandato de 18 meses restaurou os seus três pilares principais – soberania, interesse nacional e dignidade – e disse que o país “não era mais submisso” e não era guiado pelas directivas de outros países.
“O nosso mar aberto não é apenas uma fronteira geográfica, é uma porta aberta para interagir com a economia mundial para o Bangladesh. Esta região, juntamente com o Nepal, o Butão e as sete irmãs, tem um grande potencial económico”, disse Yunus, referindo-se aos estados do nordeste da Índia, sem nomear a Índia diretamente.
Sugeriu o aprofundamento da cooperação económica sub-regional baseada na conectividade, acordos comerciais, zonas económicas e acesso marítimo através do Bangladesh.
Ao agrupar os estados do nordeste da Índia, parte integrante da Índia, ao lado de nações soberanas, Yunus parece ter confundido as fronteiras políticas estabelecidas, um movimento que poderia ser visto como uma tentativa de provocar Nova Deli e influenciar um reinício dos laços Índia-Bangladesh sob o governo recém-eleito.
O discurso de despedida ocorre num momento em que Yunus enfrenta críticas internas sobre a forma como a sua administração interina lida com a segurança das minorias, a transição democrática e as relações externas.
O seu governo tomou posse em agosto de 2024, após a queda do regime de Sheikh Hasina, e está a entregar o poder a um governo recém-eleito liderado pelo Partido Nacionalista do Bangladesh (BNP).
O BNP, liderado por Tariq Rahman, conquistou 209 dos 297 assentos nas eleições parlamentares de 12 de fevereiro e deve formar o próximo governo na terça-feira.
Baseando-se fortemente em mensagens nacionalistas, Yunus disse que a sua administração restaurou as “fundações fundamentais” do envolvimento externo do Bangladesh e prosseguiu uma política de equilíbrio estratégico. Ele destacou a expansão dos laços com muitos parceiros globais, incluindo a China, o Japão, os Estados Unidos e a Europa, e citou o progresso em projectos apoiados pela China, como a iniciativa do Rio Teesta e o grande projecto hospitalar em Nilphamar.
Ele também falou sobre a modernização militar e disse que Bangladesh começou a fortalecer as suas forças armadas para combater “qualquer agressão”, sem citar ameaças específicas.
Sobre a governação, Yunus disse que a sua administração elaborou cerca de 130 novas leis, alterou várias outras e emitiu cerca de 600 ordens executivas, cerca de 84 por cento das quais já foram implementadas. Ele defendeu acordos com empresas internacionais de gestão portuária, apesar dos protestos de grupos trabalhistas, dizendo que o aumento da eficiência era essencial para o crescimento económico.
As relações com a Índia deterioraram-se acentuadamente durante o seu mandato, com Nova Deli levantando repetidamente preocupações sobre ataques a minorias, especialmente hindus, e problemas mais amplos de lei e ordem. Vários analistas dizem que as tensões políticas se repercutiram nos laços económicos, retardando o progresso na facilitação do comércio e das comunicações.
Nas suas observações finais, Yunus instou os cidadãos a continuarem a trabalhar em prol de um “Bangladesh justo, humano e democrático”, dizendo que estava a deixar o cargo com otimismo. No início do dia, ele se encontrou com altos burocratas e recebeu um telefonema de despedida do Chefe do Exército, General Waqer-Uz-Zaman, a quem agradeceu pela cooperação das forças armadas durante as eleições.






