A cativante atuação de Wagner Moura em “Agente Secreto” fez dele o primeiro brasileiro a ser indicado ao Oscar de ator principal. Assim, além dos habituais parabéns de amigos e familiares, o próprio Brasil ficou encantado com o anúncio. “Foi algo importante no Brasil, do qual gosto muito”, diz Mora, sentado em uma sala de conferências do The Times após a sessão de fotos. “Estou muito feliz que os brasileiros estejam abraçando a cultura e a arte como algo de que se orgulham, especialmente este filme e (vencedor de longa-metragem internacional) ‘I’m Still Here’ do ano passado, que também foi um filme político feito durante a ditadura.
A brutal ditadura militar do Brasil durou de 1964 a 1985. “Agente Secreto”, originalmente criado em 1977, é centrado no personagem de Mora, Marcelo, que se disfarça porque um empresário corrupto quer matá-lo.
“Chamamos isso de ditadura militar, mas era uma ditadura militar civil”, lembra Mora. “Gosto que o bandido do nosso filme seja um empresário, porque foi isso que aconteceu lá. Todos os grandes jornais do Brasil apoiaram o golpe. A chamada elite também apoiou.” O governo dos EUA fez o mesmo.
No entanto, foi uma era recente de tirania primitiva que inspirou o filme. A ascensão do presidente de direita do Brasil, Jair Bolsonaro, de 2019 a 2023, foi recebida com descrença e horror por muitos brasileiros, entre eles o ditador Moura e o escritor e diretor de “Agente Secreto”, Kleber Mendonça Filo. “Tanto Kleber quanto eu temos sido muito veementes contra este governo em particular e ambos sofremos as consequências”, diz Mora. Foi isso que nos uniu em O Agente Secreto. É um filme sobre alguém que defende os valores que possui e é assim que nos sentimos.
“Somos pessoas muito diferentes, mas vemos o papel do artista e o papel do cinema e da arte da mesma forma”, continua. “Achamos que arte e política andam juntas, não devem ser separadas, mesmo quando você assiste uma comédia ou animação romântica, se isso te faz se importar, te muda, te faz pensar na sua vida, isso é político para mim.”
Maura em “Agente Secreto”.
(néon)
Marcelo, um viúvo cujo nome verdadeiro é Armando, viaja para Recife para escapar do ataque e se juntar ao filho Fernando (Enzo Nunes), que mora com os pais da esposa. Procurando uma maneira de escapar do país com segurança, ele concorda em ser entrevistado por um ativista que pode lhe fornecer documentos falsos.
A memória é um elemento-chave tecido ao longo do filme. Avançando até os dias atuais, vemos uma jovem pesquisadora, Flavia (Laura Lofsey), transferindo fitas de entrevistas. “A forma como a história é contada é muito importante”, observou Mora, agora mais do que nunca, “tudo está no centro das atenções, especialmente com notícias falsas e tantas mentiras malucas. Essa é a parte mais assustadora de tudo para mim, o facto de os factos já não importarem”.
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O filme tem uma sensibilidade de época envolvente. “Kleber é um grande fã dos filmes americanos dos anos 70”, diz Mora. “Você pode vê-lo fotografando com lentes anamórficas e zoom, e pode sentir (John) Carpenter, (Alan J.) Pakula, (Sam) Peckinpah, (Brian) De Palma.
Sua primeira vez trabalhando com seu amigo foi muito agradável. “Fiquei muito feliz por voltar ao Brasil depois de 12 anos e fazer algo em minha própria língua”, diz Mora, que mora em Los Angeles com a família há oito anos e talvez seja mais conhecido nos Estados Unidos por seu trabalho na série “Narcos”. “Tenho muito orgulho de ser desta região – sou de Salvador, que fica perto de Recife”.
“Às vezes eu me sentia como Dorothy em ‘O Mágico de Oz’”, diz Mora sobre as filmagens de “Agente Secreto” com um elenco de apoio tão diversificado.
(Jason Armond/Los Angeles Times)
Marcelo se esconde em um complexo administrado por Doña Sebastiana, interpretada pela estrela emergente Tanya Maria, de 78 anos. “A primeira coisa que filmei foi a cena em que ela me mostrou o apartamento. E você definitivamente vê quando a câmera está voltada para mim que eu olho para quase todo mundo (com um grande sorriso) como, ‘O que está acontecendo aqui? Ele é apenas um enfeite. Não consigo nem dizer o quão grande ela é no Brasil agora. No carnaval, muita gente vai se fantasiar como ela e com coisas como cigarro.
Ele admira outros jogadores. “Às vezes eu me sentia como Dorothy em O Mágico de Oz, conhecendo tantas pessoas diferentes no caminho para Oz. Tive a oportunidade de trabalhar com Udo Kier! E todos esses atores brasileiros incríveis, a maioria deles fora do star system brasileiro.” Além das indicações para ator principal, longa internacional e melhor filme, o filme também rendeu a Gabriel Dominguez uma indicação na categoria elenco inaugural. “Essa foi outra grande vantagem. O Brasil é um país muito diverso, com pessoas de todo o mundo.”
O Carnaval é o pano de fundo do filme, acrescentando vida e música, além de ocultar os crimes cometidos pelos detentores do poder. Elementos do absurdo também estão presentes, incluindo um homem de cabelo peludo que ataca pessoas fazendo sexo em um parque.
Acontece que a “perna peluda” é real – pelo menos a história por trás dela é. Na época, no Recife, “os jornalistas não podiam escrever que a polícia estava assediando as pessoas”, explica Mora, então atribuíram esses ataques a “pernas peludas”, até que se tornou uma lenda urbana.
Wagner Mora
(Jason Armond/Los Angeles Times)
Ele gosta dos outros mistérios do filme. “Kleber não alimenta gente. Uma coisa que gosto nesse filme é que ele não responde todas as perguntas. Gosto quando Dona Sebastiana diz: fiz três coisas na Itália e nunca direi quais são.” Mas eu realmente quero saber o que ela fez na Itália.
Uma escolha inusitada é apresentar o clímax do assassinato apenas em uma foto vista décadas depois, com artigos que denigrem a vítima. “É também um filme sobre a infâmia, porque ele está sendo perseguido injustamente. Ele foi morto e depois morto novamente porque mataram sua reputação”, observa Mora. Ele compara o destino do personagem ao dos residentes de Minneapolis, Renee Goode e Alex Pretty, que foram baleados e mortos por agentes federais, “e então as mentiras sobre eles se espalharam online. É tão cruel, e é por isso que mata o homem duas vezes. Isso aumenta o trauma da geração. É isso que este filme também faz, algo errado com ele que foi criado por seu pai.”
Nas cenas finais, Mora interpreta o maduro Fernando, que não tem interesse em ouvir as fitas do pai que Flávia lhe oferece. Mora reproduziu as cenas de Fernando no último dia de filmagem sem o ensaio habitual. Foi muito fácil para ele entrar no papel. “Quando penso nesse personagem, penso naquele garoto, em uma cena que não está no filme, onde ele está esperando o pai buscá-lo e o pai nunca aparece.”
“A lógica da ditadura ainda está muito presente no Brasil contemporâneo”, diz Mora. Ele está orgulhoso de que quando Bolsonaro tentou um golpe depois de perder as eleições de 2022, ele foi detido, julgado e encarcerado – junto com seus colegas militares – apesar dos melhores esforços do Presidente Trump. “Mas o Brasil é uma mistura maluca de progresso e de tudo que Bolsonaro representa. O Brasil foi o último país do mundo ocidental a abolir a escravidão, por exemplo. Bolsonaro não veio de Marte. Ele está profundamente envolvido na história do país.”
(Jason Armond/Los Angeles Times)




