Depois de passar os dedos rígidos pelas teclas, a professora de piano ucraniana Yevgenia retirou-se para o seu forte de colchões e lençóis para escapar do frio no seu apartamento em Kiev.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, disse na quarta-feira que o país declararia “estado de emergência” no seu setor energético, atingido por ataques massivos da Rússia e entrando em colapso à medida que as temperaturas despencam para -20 graus Celsius.
Na semana passada, uma barragem russa de drones e mísseis deixou metade da capital ucraniana sem aquecimento, o que levou o presidente da Câmara, Vitali Klitschko, a instar os residentes a abandonarem a cidade temporariamente, se possível.
Seis dias depois, cerca de 300 edifícios de apartamentos ainda não têm aquecimento e a capital debate-se com cortes de energia de emergência prolongados impostos pelas autoridades para racionar fornecimentos preciosos.
No apartamento de Evgenia a temperatura estava em torno de 12 graus Celsius.
O aquecimento do seu prédio, que está conectado à rede elétrica da cidade, é cortado sempre que há uma queda de energia porque as baterias de reserva não conseguem assumir o controle.
“Estamos sem eletricidade há 12 horas”, disse ela à AFP. “E esse nem é o pior cenário.”
A cada hora sem eletricidade, a temperatura em sua sala caía cada vez mais.
“A cada dia estamos nos aproximando de zero.”
– “Conectando pessoas” –
Equipada com uma lanterna e com o gato ao seu lado, Yevgenia entrou no bolsão de calor do apartamento: um castelo improvisado com colchão.
A temperatura lá dentro chegou a 24°C.
“Essa ideia me ocorreu ontem à meia-noite”, disse o jovem de 32 anos, surpreso com sua eficácia.
“Eu só queria sentir, não sei, segurança, uma sensação de infância.”
Desde a invasão em fevereiro de 2022, a Rússia destruiu a rede elétrica da Ucrânia todos os invernos. Segundo Kiev, os ataques visam prejudicar a população civil.
“Esta é uma tentativa de quebrar as pessoas”, disse à AFP Oleksandr Kharchenko, diretor do Centro de Pesquisa da Indústria Energética de Kiev.
Ele acusou a Rússia de tentar mergulhar as grandes cidades num “desastre provocado pelo homem, numa crise absoluta”.
“Neste momento, a situação em várias regiões importantes é a mais difícil de toda a guerra, em termos de fornecimento de energia e aquecimento”, acrescentou.
Em Kiev, após o pôr do sol, o brilho dos faróis dos carros e dos corredores iluminava as ruas congeladas e escuras da cidade.
O som dos drones de ataque russos misturava-se com o zumbido baixo dos geradores de energia.
Porém, os moradores não se atreveram a erguer os olhos para verificar o perigo lá de cima, olhando para o caminho à sua frente para não escorregar.
As pessoas se exercitavam nas academias à luz de velas, cortavam os cabelos à luz dos faróis e examinavam as prateleiras dos supermercados à luz dos celulares.
Sem eletricidade, nas residências as geladeiras serviam de prateleiras e as varandas de freezers.
– Sem “desastre” –
A cidade também montou grandes tendas aquecidas onde são distribuídas refeições quentes.
Porém, diante da crise, a política também entra em jogo.
Zelensky criticou duramente as autoridades da cidade por esta reação.
“Muito pouco foi feito na capital”, disse ele num discurso em vídeo na quarta-feira.
O prefeito Klitschko, rival político e ex-campeão peso-pesado de boxe, respondeu.
Tais declarações “menosprezam o trabalho altruísta de milhares de pessoas”, disse ele no Telegram, condenando as mensagens de “ódio” dirigidas a ele.
Zelensky ordenou um aumento urgente no volume de importações de eletricidade para reacender as luzes.
Enquanto isso, Yevgenia esperava o fim do inverno em seu forte de cobertores, cercada por seu telefone, banco de energia “e, claro, seu gatinho”.
“O gato não tem preço”, disse ela.
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