Vaidade Manteiga: A arte do pouso inseguro - Aeroagora

Yo yo folks. What’s the crack?

Eu estava pensando em tornar sexta o dia de maldade do Aeroagora? Ou seja, o dia de posts ser ás sextas. O que vocês acham? Deixem nos comentários, e combinamos.

Estou desenvolvendo meu TCC da faculdade sobre CRM na instrução e nas pesquisas sobre o que afeta a comunicação, percebi um fator cultural: o tal do ‘long landing’, na terra tupiniquim conhecido como ‘pouso manteiga’. Sácomé… Aquele que quando você faz no aeroclube, você sai do avião com a música Superstition do Stevie Wonder… Sejamos francos, quem nunca tentou fazer um pouso manteiga (isso se não tenta em todo pouso…) que dê o primeiro catrapo.

Sabemos que esta cultura não é isolada no Brasil, mas em todo lugar: toque suave é o arauto da pilotagem. E o piloto que faz isso com excelência, Santo Spinner… Sai do cockpit como um Deus.

Mas vamos pensar um pouso: a que custo fazemos um toque suave ? Digo, em tese, só conseguiríamos fazê-lo em atmosfera calma, o que é raro, e o logo existente. Mas não da maneira que fazemos. Uma vez, conversando com um ex-piloto da Avianca que tenho como uma das minhas principais inspirações pessoais, eu disse a ele: ‘Cara, fiz um -6 ft/min no Fight Simulator…’, e sua resposta foi.. ‘Ótimo.. O pouso foi bom, mas e a aproximação? Foi na rampa? Ou ‘três vermelhas e uma branca’? Você tocou no aim point, ou foi livrou na última taxiway?’

Muito do que fazemos senhores, é oriundo de ver amigos fazendo, vídeos, ou mesmo fazemos em simuladores/jogos caseiros. É errado sim, mas até mesmo simuladores/jogos caseiros podem criar uma memória visual e muscular que depois corremos o risco de querer realizar em voo real, mesmo que sem perceber.

Culturalmente Heróico

Ouvi essa semana um dos maiores aforismas aeronáuticos que poderia ter pensado: ‘As coisas estão te protegendo. Não inventa.’ Quando meu professor falou essa enfática frase, ele referia-se as chances que temos para não virarmos estatística, ou pior, ‘um retrato na parede de alguém.. depois nem isso’.

Gentleman, a aviação tem regras oriundas, em suma, por casos que já levaram a acidentes históricos e inestimáveis perdas. E o pior é que quem não as segue muitas vezes pensa que quem segue é chato, voa engessado e etc. Culturalmente a aviação tem um quê de heroísmo, valentia, bravura.. e uma série de façanhas. Isso tem uma razão: muito do que temos hoje na aviação vem de procedimentos criados em plena 2ª Guerra Mundial… Logo, esses atributos eram exigidos dos pilotos. Mas hoje, não mais, e principalmente na aviação de pequeno e médio porte.

Custos da ‘três vermelhas e uma branca’

Essa expressão refere-se as luzes PAPI. Quando vemos ligeiramente abaixo da rampa, ficamos mais próximos ao solo, com chance de fazer um flare mais longo, e fazer um toque mais suave. É um pouso muito executado na aviação executiva, por promover pouco uso da pista.

Mas vamos pensar na seguinte possibilidade: estamos nos aproximando de uma pista como Congonhas, ou Marte, abaixo da rampa e perdemos um motor. Legal: por si só.. na perda de um motor, o avião vai perder um pouco de altitude. Lógico, estávamos dividindo a potência necessária para manter a rampa entre os dois motores. Se você é um piloto que mantém as velocidades do manual, principalmente a VAPP Single Engine, aquela que deve ser mantida no caso de um motor inoperante, então você ainda tem uma chance.. se não bancar o herói. Arremeta!

Agora, se você manter a tal da VAPP short landing.. cara, azedou o pé-do-frango. O próprio time delay que temos até identificar o motor em pane, tomar a atitude de voo, reconfigurar a aeronave, arremeter.. bixo.. você já perder uns bons pés… e ainda mais.. da dependendo do seu peso… e do seu planejamento.. sua VAPP pode ser a engessada 85.. 87kt.. e não estar a 130% da velocidade de estol para peso de aproximação, corrigida ainda para 50% do vento 100% de rajadas… a tal da VREF.

Quer ver piorar… Tem como.. Imagina isso tudo de mono motor?

Agora uma pergunta? Voar é inseguro? Não.. sabemos que não! Mas esse tipo de coisa está em manuais, paletras de segurança de voo.. o que me leva a pensar em outro aforisma: ‘não existe pano preto pra quem lê manual’.

Consequências do ‘pouso manteiga’

Vamos olhar uma coisa… 

 

Um trecho tirado do FCTM da Boeing. Dentre os fatores que afetam o pouco correto, estão: o tal do flare longo, estar muito acima da altitude de cruzamento de cabeceira, speedbrakes não extendidos, reversos inoperantes, frenagem inapropriada, e velocidade acima da correta de aproximação (VAPP), já citada acima. Lembro também, que em um pouso você pode ter todos esses fatores juntos.. logo, soma-se os adicionais. Mas e no caso de uma pista curta?

Tudo isso, se resume a uma coisa: aproximação desestabilizada. Se o pouso vai sair um vicitroço do subtreco, é porque a aproximação foi mal estabelecida. Então, procure trabalhar sempre:

  • Uma velocidade de aproximação bem calculada;
  • Aproximação em power-on, trabalhando coordenação atitude-potência;
  • Respeito das altitudes de aproximação;

Essa doutrina operacional começa no cessninha, e no paulistinha. Então, não pense você que só porque está voando um cessna tem o direito de fazê-lo.

Tem como fazer certo?

Sim, em tese. O bom pouso é aquele bem analisado e planejado.

Muita coisa influencia nele, como por exemplo peso, vento, altitude densidade, área da asa, extensão dos flapes, e principalmente o ângulo de ataque. Não se pousa uma aeronave a pisão como se pousa um jato. A atitude a aproximação e o ângulo de ataque no momento do toque são os fatores que mais contam pro toque suave.

Você já ouviu falar sobre o pouso ser um estol? Pois é, ele é. Se você ‘calar as piriquitas‘ próximo ao solo (entre 30 e 50ft), trabalhar a atitude, e no momento do toque, aproveitar a inércia, o toque será suave e ainda terá a chance de fazer aquele toque lindo, com o nariz por alguns segundos no alto sem tocar a pista.

É técnica, experiência. Apenas use a aerodinâmica ao seu favor. Não deixe que a vaidade do pouso manteiga afete sua destreza e coloque em xeque sua competência.

Flight Safe, Folks.

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