PARAFUSO: Não faça isto em casa - Aeroagora

Demorei quase quatro dias para escrever este post. Sabe porque? Porque eu precisava sintetizar em uma única frase o que é um parafuso. E consegui: em um parafuso, um avião está estolando, rolando, guinando, picando, glissando e perdendo altura rapidamente. Ufa. E isso é tudo ao mesmo tempo jovem padawan. Escrevo este artigo em consideração a um grande amigo que me pediu pra comentar sobre o assunto, so.. here we go.

O parafuso é uma condição de voo estolado no qual o avião descreve uma ‘espiral’ descendente seguida de uma queda da asa no ponto de estol. Seu primeiro pré-requisito, é um estol. Vamos só lembrar o que é um estol? É descolamento do filete da camada limite, logo, podendo ser ocasionado por velocidade (de menos ou de mais..), angulo de ataque, entre outros. Mas neste caso, suporemos um estol comum, angulo de ataque no angulo crítico, velocidade drenada, piiiii…. (buzina de estol).

Agora, imagine agora uma câmera lenta… esta aeronave começa a perder sustentação, e supondo que você (o piloto) provoque uma derrapagem, há queda de asa certo? Lógico bisonho… Você aplicou leme, acelerando uma das asas, produzindo mais sustentação nesta, diminuindo o angulo de ataque, e afastando-a do estol. A asa interna perde velocidade, produz menos sustentação ainda, e seu angulo de ataque aumenta ainda mais, a asa estola… (sou eu ou parece até uma daquelas cenas de novela mexicana?)

Começa a autorrotação. Com a asa abaixada aumentando seu ângulo de ataque, reduzindo a sustentação e aumentando o arrasto, o avião rolará, glissará e o nariz afundará. Se não for feita uma correção, a velocidade de rotação aumentará e aqui ele está… o parafuso. Dentre os sentimentos do piloto estão sentimento de mudança do fator de carga, enjoo, desorientação espacial.. Então, por favor, não faça isso em casa. De maneira geral, o avião não vai direto do estol para o parafuso. Existe um período de transição que dura de duas ou três voltas na auto rotação antes de iniciar um parafuso completo e estável.

Como acontece um parafuso acidental? 

Basicamente três causas: ailerons em baixa velocidade, curvas e ângulos de incidência diferenciais. Quando tentamos usar ailerons em uma asa que baixou próximo ao estol, podemos provocar o efeito inverso. Se quando o aileron descer, o ângulo de ataque ultrapassar o ângulo crítico, em vez da asa levantar, ela pode baixar rapidamente, e resultar em um parafuso.

Não é diferente em curvas ascendentes, já que o ângulo de ataque é maior na asa externa a curva, ou mesmo em uma descendente onde o ângulo de ataque é maior na asa interna.  Se a asa com maior ângulo ultrapassar o angulo crítico, a consequência será um parafuso. Uma dica: nas curvas ascendentes o parafuso será no sentido oposto da curva, enquanto nas descendentes no mesmo sentido.

Agora falando de ângulo de incidência, se uma aeronave possui asas com ângulos diferentes, ao se aproximar do estol ela poderá estolar com a asa com maior ângulo de incidência e assim entrar em parafuso.

Um parafuso acidental poderá apresentar sérios riscos, principalmente se você estiver em altura insuficiente para recuperação, num avião não previsto de efetuar parafuso (mesmo ele sendo da categoria utilidade).

Em voos de teste, aqueles para homologação, o piloto executa um parafuso com uma única volta para cada lado e sai do parafuso. Depois de uma volta, o comportamento do avião é desconhecido, podendo não sair da manobra.

Cara, isso parece bem chato..

Achou mesmo é? Pois ele pode piorar. Quando o centro de gravidade (CG) de uma aeronave está muito atrás do limite traseiro, após algumas voltas do parafuso, ele pode se tornar um parafuso chato, no qual o avião gira quase na posição horizontal, e em uma vertical espiral descendente. O vento relativo neste caso atual com grande inclinação em relação ao eixo longitudinal, e ele se torna praticamente irrecuperável.

Em voos de teste, coloca-se um paraquedas na causa do mesmo, que é acionado após algumas voltas. Nos homologados, é tua responsabilidade como (mestre jedi) comandante cuidar para que o CG não ultrapasse o limite traseiro do centro de gravidade.

Ok.. Aconteceu.. Como sair?

1- A recuperação deve ser feita com flapes recolhidos;

2 – Reduza a manete, pois a potência tende a cabrar e aumentar a velocidade do avião;

3 – Solte o manche, deixando-os na posição neutra;

4 – Observe o turn and split indicator, e aplique pedal ao sentido contrário à rotação;

5 – Assim que a rotação diminuir, neutralize o profundor, para sair do estol. Não aplique o profundor antes do leme pois poderia aumentar ainda mais a velocidade de rotação;

6 – Quando cessar a rotação, neutralize os pedais;

7 – Quando a velocidade aumentar, recupera o avião do mergulho. O movimento do manche para trás, deverá ser suficiente para evitar velocidades excessivas;

Dica extra: Sim, eu sei.. você está desesperado. Mas não cabre muito o avião, pois poderá causar elevados fatores de carga ou ainda estolar novamente o avião.

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