Yo folks. Wazzup neggas?

Primeiro texto do ano, e já aviso que as coisas por aqui vão mudar. Começarei uma série que nos fará pensar sobre nossas escolhas, assim deixando sementes plantadas para o texto final desta série: piloto autêntico.

Mas antes de a gente começar, alguns avisos:

1 – Leia este texto DUAS vezes. Eu antes de publicar, mandei ele para três amigos. Estes me deram sua opinião inicial de que não gostaram. Minutos depois, ‘não, espera.. não é bem assim.’

2 – Este texto é ‘um tapa na cara triplo’ de acordo com um deles.. Então vai doer muito, principalmente se você fizer isso ou então alguém que goste faça.

3 – O Aeroagora não está aqui para passar a mão na sua cabeça. Está aqui para tirar você da sua zona de conforto e te ajudar a se tornar o melhor piloto que você possa ser.

4 – Se leu até aqui, então é porque você é um sadomasoquista intelectual. Nietzsche dizia que “reconhecer a inverdade como uma condição da vida, isso por certo, significa enfrentar os costumeiros sentimentos de valor de uma maneira perigosa, e a filosofia (ou piloto) que se arrisca a fazê-lo coloca a si mesma, tão só por esse ato, além do bem e do mal”

Starting Eng. 1

Bem senhores(as), aviação por si só tem uma história bem interessante. Profundamente enraizada no militarismo, e posteriormente ao público geral, a aviação tem uma veia de devoção. Isso é tipicamente militar, conheço poucos militares que não são devotos a seu dever, ou mesmo patrióticos com sua nação. Mas esta hereditariedade veio de uma maneira péssima para aviação: você ser piloto significa que tem que ser um herói. ‘Não, você não pode não saber fazer algo, não se sentir inseguro, ou mesmo não se sujeitar a não se arriscar.‘ Véi, para.. Tá feio.

Somo assim, mesmo que não percebamos. É simples notar como somos assim, quando rimos das limitações dos demais colegas, seja qualquer situação.

Metafísica do PP de Instagram

Antes de mais nada, eu já fiz muito disso. Quer ver um piloto privado ‘chavoso’? Pergunta o e-mail dele na primeira aula do PP. Será cptfulonodetal@blabla.com, cmtechavoso@bleble.com.. E por ai vai. Nós temos esta habilidade incrível de personificação. Um pensador francês, Sartre define isto como náusea. Funciona da seguinte maneira:

Passo 1 – Tenho uma experiência com aviação, seja voando, seja vendo Top Gun.

Passo 2 – Mudo todos os meus nicknames para ‘Cmtealgumacoisa’.

Passo 3 – Me matriculo no PP, e no mesmo dia compro todos os livros, uma carteira com um distintivo, uma camisa e berimbelas.

Passo 4 – Mudo as fotos de perfil para a foto que tirei usando aquela camisa com as berimbelas em frente ao espelho

Manuu du séu.. para que tá feio.’ O pensador, e eu temos a mesma opnião. Se você faz isso, você é um péssimo ator de piloto fora do teatro. Isto acontece basicamente porque você fica convencido do que disseram que você é: ‘vai ser piloto de boeing é?’.  Então começa a agir para justificar teatralmente a identidade que lhe conferiram: ‘eu sou piloto, então eu tenho que começar a só gostar de foo fighters, top gun, e só comprar coisas de aviação’.

Na realidade não. Piloto não tem que fazer nada disso. Conheço pilotos da Emirates que em suas casas não tem nada que remete a aviação. Conheço pilotos da Korean Air que detestam ser chamados de comandantes. Não é se personificar como piloto que te tornar um piloto.

A ilusão de que nasceu pra isso

Sabe, amo ouvir gente fazendo aquele comentário: sempre quis ser piloto. Quando eu tinha 5 anos, eu só brincava com aviãozinho. E quando olho pro céu, meus olhos brilham. (kkk..)

Bom ‘pai’, bora lá. Seu olho brilha e lacrimeja porque você está olhando pra algo mais claro, como quando acende a luz do quarto escuro. E quando você era criança, aquilo era só um brinquedo. Até porque se você trouxer este princípio, ‘aviões são brinquedos’, me avise quando você for voar, para a gente livrar o espaço aéreo. Por uma questão psicológica que envolve desenvolvimento cognitivo, não se associa uma coisa a outra.

Mas temente que você nasceu para isto, você cumpre as etapas do primeiro tópico e vem para a primeira hora de voo. Chegando lá, não decola, não pousa, mas fazendo umas curvinhas, é elogiado: estou pronto para ser cmte master de triple seven.

Ai a dificuldade aumenta, as manobras se tornam mais complexas, as chamadas de atenção se tornam mais extensas e recorrentes, e os feedbacks quase sempre negativos. Mas o que aconteceu com o garoto do e-mail cmtechavoso@bleble.com? Bem ele encontrou suas primeiras dificuldades aeronáuticas.

O primeiro voo, criou nele uma inexplicável euforia, um aumento exponencial de potência de agir. Ai, cometeu um erro a não ser cometido, e definiu para si: aviões me alegram, ser piloto é meu destino. O encontro consigo no décimo voo já não é tão alegrador, e ele começa a entender que o piloto não é um ídolo, e que a qualidade de vida de instrução (por vezes o primeiro passo da carreira) é péssima. Aviões no sol, sem ar condicionado, e um salário ruim.

Essas experiências da vida fazem com que nós evoluamos. E isto é o que nos tornará verdadeiros aviadores. Entenda, o caminho até aqui é normal e comum. Com redes sociais, e etc, isto se tornará ainda mais comum. Mas é importante que entendamos que a aviação não é bonita, e aliás está pronta todos os dias para te desiludir.

Eu mesmo fiz tudo o que falei acima. Até meu terceiro voo, eu vomitava depois de todos os voos. Até o décimo, me sentia enjoado. Até próximo o solo, meus nicknames eram todos iguais a este. Hoje, o uniforme fica guardado, e a carteira com o distintivo também (a qual até tenho vergonha de ter comprado).

Viva la revolución

Este texto não está aqui pra te fazer desistir, mas sim buscar conhecer a melhor versão de si mesmo. Quando enviei este texto a meu amigo, ele ainda disse: ‘no meu aeroclube está cheio de gente que tira foto em todos os aviões, mas mesmo assim não abre o livro, ou o manual pra ler’.

Eu tenho uma proposta para você fella: que tal viver aviação in natura? Aviação mesmo com seus devaneios, é linda em seu ineditismo, virgindade e em sua irrepetibilidade. Mesmo que não saibamos ao certo como nos tornarmos um comandante de A380, estaremos aí, prontos para sermos diariamente desiludidos com falta de empregos, falta de recursos para voar, mas entre um voo e outro, encontrar grandes alegrias, surpresas e momentos que você nunca mais gostaria que acabassem.  Não busque pela epítome dos pilotos, pois esta não existe.

Isso é o que faz com que a vida de um piloto seja digna de ser buscada, e fantástica de ser vivida.

Fly safe, folks.

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