Como ‘aproveitar o dia’ na aviação

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Uma das coisas mais complicadas sobre nós mesmos é como aproveitar cada dia de nossas vidas como se fosse o último. A ansiedade tomou conta de nossas células, e de uma forma indomada, que mudou a própria essência da vida. Hoje somos coordenados desde o berçário para uma exímia carreira, uma casa perfeita, o carro do ano, a mulher mais bela.

Mas até que ponto isto é ruim? Até que ponto você viver para o emprego dos teus sonhos é ruim? E a resposta é simples: até o ponto que você percebe está deixando a sua vida passar, e as pequenas coisas dela não mais lhe contentam. Logo, ser aviador, que é o tutano da nossa profissão, já não te satisfaz e monetizamos por completo esse ‘mantra’ chamado aviação.

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Faço questão de trazer aqui o meu trecho de livro favorito:

“Com a minha experiência aprendi pelo menos isso: que se uma pessoa avançar confiantemente na direção de seus sonhos, e se esforçar por viver a vida que imaginou, há de se encontrar com um sucesso inesperado nas horas rotineiras. Há de deixar para trás uma porção de coisas e atravessar uma fronteira invisível; leis novas, universais e mais abertas começarão por se estabelecer ao redor e dentro dela; ou as leis velhas hão de ser expandidas e interpretadas a seu favor num sentido mais liberal, e ela há de viver com a aquiescência de uma ordem superior de seres. A medida que ela simplificar a sua vida, as leis do universo hão de lhe parecer menos complexas, e a solidão não será mais solidão, nem a pobreza será pobreza, nem a fraqueza, fraqueza. Se construístes castelos no ar, não terá sido em vão vosso trabalho; eles estão onde deviam estar. Agora colocai os alicerces por baixo”.
~ Henry David Thoreau, “Walden” ou “A Vida nos Bosques” (Editora Ground, tradução Astrid Cabral)

O trecho fala sobre uma única coisa: carpe diem, do latim aproveite o dia. A nossa vida não pode se resumir apenas de coisas à longo prazo. A vida pode (e deve) ser mais simples, e imperfeita. Quando estiver no aeroclube, aproveite o aeroclube. Sinta a máquina, ouça seu instrutor, aprenda, filtre, melhore, evolua. Nada disso é plenamente possível quando se está afogado em ansiedade de estar pronto para a seleção da linha aérea que se abriu, ou mesmo um amigo que lhe chamou para voar.

 

 

 

Hillsboro

 

 

 

Já no primeiro emprego, está louco para ir pro 777 ou o A350 não é? Quem não está? Mas como você quer ser lembrado? Um cara que era naturalmente bom, ou um cara que forçava sua vida para seguir caminhos que talvez não fossem os melhores para ela? O próprio texto nos fala: “se uma pessoa avançar confiantemente na direção de seus sonhos, e se esforçar por viver a vida que imaginou, há de se encontrar com um sucesso inesperado nas horas rotineiras.”

Parafraseando ainda David Frawleyse não sabemos guiar um (carro) avião de modo satisfatório, o problema de onde ir com ele não é relevante. Isto não significa que somos ruins, nem que deixar de (dirigir) pilotar seja algo impossível, mas não entendemos como guiar as leis que regem a direção.

Devemos nos educar para nos conhecermos, pois ao invés de nos preocuparmos da maneira como as coisas serão, o correto é usar o nosso potencial e habilidades de uma maneira pró-ativa, afim de uma compreensão superior sobre nós mesmos. Não é mais uma questão de ser o melhor candidato, e sim, de ser único. Entenda de uma vez por todas: você não precisa de 10 vagas na empresa A, 23 na empresa B e 7 na empresa C para ser contratado, e sim de apenas uma. Aquela que você se preparou a vida inteira para ocupar, aproveitando cada momento, querendo que ele durasse para sempre.

Aproveite o dia, aviador. 😉

autografo
RWY
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Bacharel em Aviação Civil pela Universidade Anhembi Morumbi, e piloto privado pelo EJ. Completamente louco por aeronaves executivas, hambúrguer, rock 'n roll e jazz.

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